Fantasias sci-fi preveem há um bom tempo que vamos morar na Lua. Mas se a falta de atmosfera representa um problema para a vida lunar, pode haver um problema ainda maior: uma nova pesquisa sugere que a superfície da Lua é tóxica para humanos.

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Por motivos óbvios, a exposição humana ao ambiente lunar por longo prazo nunca foi estudada em profundidade. Mas agora, uma equipe internacional de cientistas investigou amostras de poeira lunar para prever os efeitos dela em nossa saúde. E parece que a poeira lunar é extremamente fina e cortante – e seria o maior problema para a saúde humana.

Primeiro, quando a poeira lunar chega aos pulmões, ela pode causar todo tipo de problema de saúde. Na melhor das hipóteses, a inalação dessas partículas podem causar inflamação das vias aéreas; na pior das hipóteses, ela pode aumentar o risco de diversos tipos de câncer. Os pesquisadores comparam a poeira a poluentes na Terra como amianto e cinzas vulcânicas, pequenas o bastante para penetrarem fundo nos pulmões. Mas a poeira lunar pode ser ainda mais perniciosa, devido à sua exposição prolongada a prótons e radiação ultravioleta na superfície pouco protegida da Lua.

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Mas a superfície dura e vítrea da poeira lunar, resultado da vaporização de rochas por impactos de meteoritos, também as tornam fisicamente danosas. Os pesquisadores afirmam que, por serem afiadas, as partículas podem causar irritação extrema na pele durante exposição prolongada. Além disso, devido à microgravidade, ela pode facilmente chegar ao rosto, então não demoraria muito até sua córnea ser riscada por partículas lunares, se seus olhos não estiverem protegidos.

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Claro, todos os resultados são hipotéticos: precisaríamos viver em uma espécie de base lunar, expostos diretamente à poeira lunar, para ter certeza de tudo isto. Mas entender o dano real que a poeira lunar poderia nos causar iria, claro, exigir testes feitos na Lua, o que deve ser um pouco difícil nos próximos anos. Pelo menos, já sabemos que há mais um obstáculo para morar por lá – já não bastassem a falta de atmosfera e gravidade.

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Uma nova análise conduzida com base em cópias preservadas por um cientista de dados perdidos pela Nasa permitirá determinar de que maneira a grudenta e abrasiva poeira lunar pode afetar futuras missões espaciais de longa duração ao satélite.

O autor do novo estudo, Brian O’Brien, era o diretor de pesquisa encarregado dos detectores de poeira que foram deixados na Lua pelas duas primeiras missões tripuladas ao satélite terrestre, a Apollo 11 e a Apollo 12. O’Brien era professor de ciência do espaço na Universidade Rice, em Houston, Texas.

Poeira lunar altamente abrasiva era movimentada por ação dos foguetes dos módulos lunares do programa Apollo, quando estes decolavam da superfície do satélite. As labaredas dos foguetes chegavam a chamuscar equipamentos posicionados a mais de 100 metros de distância do local de pouso.

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“No futuro, estamos planejando construir um posto avançado na Lua, e estaremos retornando ao mesmo lugar muitas vezes”, diz Philip Metzger, cientista no Centro de Vôo Espacial Kennedy, da Agência Espacial Americana (Nasa), na Flórida. “Por isso, precisaremos proteger a nossa base contra danos”. Metzger e seus colegas estavam tentando modelar a interação entre os gases de escape de um foguete e a superfície lunar.

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Em 2006, O’Brien foi informado por um amigo de que a Nasa havia perdido as fitas que continham os dados originais sobre suas experiências com detectores de poeira. “Por isso, decidi telefonar a Dave Williams (o curador científico da organização)”, conta o pesquisador, que confirma a história.

O’Brien, que hoje trabalha como consultor ambiental independente em Perth, no Estado da Austrália Ocidental, saiu em busca de suas cópias pessoais das fitas magnéticas de sete trilhas que a Nasa lhe havia enviado depois que o programa Apollo foi encerrado.

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Já que o leitor de fitas de sete trilhas da Nasa quebrou alguns anos atrás, O’Brien está trabalhando com a SpectrumData, uma empresa australiana sediada em Perth, para extrair os dados gravados nas fitas. Felizmente, ele havia imprimido cerca de 100 páginas de dados ao receber as fitas originalmente, de modo que foi capaz de executar uma análise preliminar dos resultados. As conclusões a que O’Brien chegou com seu estudo serão publicadas pela revista Geophysical Research Letters.

Exaurindo as possibilidades
Os dados de O’Brien sobre a poeira lunar são um acréscimo que se provará útil, afirmou Metzger. O primeiro detector de poeira lunar foi posicionado a 17 metros do local de decolagem do módulo lunar da Apollo 11, mas o segundo estava a mais de 100 metros de distância da posição de que a Apollo 12 decolou.

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O’Brien analisou a energia produzida pelos três painéis solares dos detectores de poeira durante e imediatamente depois que os módulos lunares de ambas as missões deixaram a superfície da Lua. As ignições dos foguetes parecem ter levado poeira a se empilhar sobre alguns dos painéis solares, mas não sobre todos eles, o que sugere que a terra da Lua não é arremessada ao ar de maneira simétrica pela ignição de um motor-foguete. “Isso oferece aos cientistas da Nasa dados sólidos e contínuos obtidos a duas distâncias diferentes, algo com que eles não contavam anteriormente”, afirmou O’Brien.

Metzger afirmou que um estudo recente dos destroços da sonda lunar não tripulada Surveyor 3, que colidiu com a superfície do satélite perto local de pouso da Apollo 12, havia demonstrado marcas semelhantes no solo. Tendo em vista essa descoberta recente, Metzger afirma, “faz sentido que Brian tenha obtido resultados tão dramaticamente diferentes nas células solares”.

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Ainda que a gravidade lunar tenha levado toda a poeira a cair dos painéis solares, não está claro porque alguns dos painéis terminaram limpos mais rápido. O’Brien sugere em que seu estudo que a poeira lunar talvez se torne mais aderente durante o dia do satélite, que dura 710 horas, porque a luz do sol removeria elétrons e criaria eletricidade estática. Ele acredita que isso talvez explique por que a célula solar que recebe menos luz solar direta apresenta o tempo mais rápido de queda da poeira lunar quando o sol se põe.

Os astronautas das missões Apollo chegaram e partiram durante as manhãs lunares, que são relativamente frias e oferecem sombras que ajudam na navegação. Missões futuras permanecerão no satélite ao longo de suas horas diurnas, e podem necessitar do desenvolvimento de métodos que permitam conviver com poeira mais aderente, caso a análise de O’Brien se prove correta.

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“Os trajes dos astronautas, que estão armazenados há mais de 40 anos, continuam pretos de fuligem”, diz Mihaly Horanyi, físico da Universidade do Colorado em Boulder. Mas nem todo mundo concorda com a interpretação proposta por O’Brien para os dados obtidos pelos sensores de poeira, ele acrescenta. “Creio que os dados apresentados em seu estudo serão recebidos de maneira positiva, mas os argumentos teóricos que ele expõe precisam ser mais refinados”, disse o físico.

O Cheiro da Poeira Lunar

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Após seis missões Apollo terem aterrissado a superfície lunar entre 1969 e 1972, um total de 12 astronautas já colocaram seus pés sobre a superfície do nosso grande satélite natural. Décadas mais tarde, astronautas e cientistas lunares ainda estão tentando encontrar uma forma de apreciar o aroma único que só a Lua tem.

Larry Taylor, diretor do Instituto de Geociências Planetárias da Universidade do Tennessee, em Knoxville, trabalhou no Centro Espacial Johnson da NASA em Houston durante a missão Apollo 17. Segundo Larry, quando um geólogo esmaga uma rocha aqui na Terra, essa pessoa vai sentir algum odor que foi gerado pelo esmagamento dos minerais, criando as chamadas “ligações pendentes”. Mas na Lua, as ligações pendentes podem existir por um longo período de tempo. Segundo ele, a umidade da membrana do nariz age com a poeira de ligações pendentes e produz o cheiro tão peculiar que todos os astronautas comentam.

O piloto do módulo lunar da Apollo 11, Buzz Aldrin, também lembra do cheiro da Lua. Quando Armstrong e Aldrin entraram no módulo lunar Eagle, seus trajes e equipamentos estavam cheios de poeira lunar. Esse pó tem um odor único, disse ele.

“Parceia carvão queimado“, disse Aldrin. “ou então, o cheiro de cinzas de lareira, principalmente se borrifar um pouco de água sobre o pó.

Aldrin também comentou sobre um outro episódio sobre a poeira lunar na missão Apollo 11. “Antes de sairmos da Terra, a poeira lunar era considerada por alguns alarmistas como altamente perigosa, capaz de entrar em ignição espontânea facilmente”, disse Aldrin. Então, Aldrin e Armstrong fizeram um teste com uma amostra lunar que ele havia colocado em seu bolso caso tivesse que deixar a missão às pressas. Assim que a cabine de pressurização começou a se encher de oxigênio, eles ficaram com medo daquilo pegar fogo, mas felizmente nada aconteceu. “Caso a coisa começasse a dar errado, pararíamos a pressurização, mas nada aconteceu”.