É uma autêntica odisséia no espaço. O planeta Terra está se movendo em desabalada carreira através do Universo— e um dos grandes desafios da ciência moderna é justamente determinar qual é, afinal, o destino definitivo dessa incrível viagem. O curto tempo necessário para ler esta página basta para mostrar que a viagem, além de incrível, é assustadora. Pois, sem perceber, quando terminar a leitura, um terráqueo terá se deslocado por uma distância imensa: cerca de 400 mil quilômetros, ou dez vezes a circunferência do planeta, segundo as últimas contas apresentadas pelos astrônomos e astrofísicos, os homens que investigam o céu.

ACDD2040-2C4D-4339-AFF6-C7A6C74511EB

O que eles não sabem é explicar a causa desse movimento, o qual, traduzido em grandes números, indica que a Terra voa a cerca de 2 milhões de quilômetros por hora, vinte vezes mais veloz que as mais lépidas naves já lançadas. Os cientistas imaginam que estamos sendo arrastados por uma inesperada e formidável concentração de estrelas, em algum ponto do espaço, na direção da constelação do Cruzeiro do Sul, mas certamente muito além dela. Incapazes de divisar o vasto vulto dessa massa de estrelas, que permanece nos confins do Cosmo, oculta dos telescópios, os cientistas se contentam em lhe dar um nome portentoso: o Grande Atrator.

C525B30F-497F-4FFC-A6CA-A0C8ABBE212B

É possível até que não haja estrela nenhuma na reta final da corrida: o Grande Atrator pode revelar-se um personagem muito mais estranho e incomum do que os prosaicos sóis conhecidos pela ciência. As mais notáveis candidatas ao título de Grande Atrator ainda são as estrelas, ou melhor, as grandes concentrações de estrelas, como as galáxias e os grupos de galáxias, chamados aglomerados ou superaglomerados, dependendo do seu tamanho. É instrutivo observar esses colossos siderais para entender como nasceu o enigma do Grande Atrator. O périplo terrestre começa com o Sol, o mais próximo centro de força gravitacional que influencia o movimento do planeta. A portentosa massa solar exerce uma atração constante sobre a Terra, fazendo-a girar à sua volta a 100 mil quilômetros por hora.

702613DD-B16E-4AD2-A50B-4A0D4E2BF520

Mas isso não é tudo: em seguida é preciso acrescentar o movimento do próprio Sol, que se move levando consigo todo o séquito de planetas a rodopiar no céu. A situação é curiosa, pois, quando os dois movimentos se somam, a Terra acaba realizando uma infindável espiral no espaço, algo como um descomunal saca-rolha. Na verdade, é difícil visualizar a tortuosa trajetória da Terra, já que o Sol não corre em linha reta, mas gira a cerca de 1 milhão de quilômetros por hora em torno do centro da galáxia, a Via Láctea—levando quase 200 milhões de anos para completar o percurso. Sob a forma de um grande redemoinho, onde se agitam nada menos de 200 bilhões de estrelas— das quais alguns milhares enfeitam as noites terrestres—, também a Via Láctea está sendo arrastada. Junto com outras 21 galáxias próximas, denominadas coletivamente Grupo Local, ela arremete na direção de um distante aglomerado de galáxias, conhecido como Virgem.
CEAB5357-255F-44F5-B8C4-FAE3D0F79583
“Nesse ponto, é inevitável nos sentirmos como uma colônia de micróbios na ponta da asa de uma andorinha”, compara o astrofísico brasileiro Augusto Daminelli, do Instituto Astronômico e Geofísico (IAG) da USP. Nessa metáfora, cada andorinha representa uma galáxia. “Então, a hercúlea tarefa do astrônomo é tentar prever o destino de todo o bando de aves”, descreve Daminelli. Não se deve esquecer que a Terra, assim como o Sol e as outras estrelas, acompanha o movimento das galáxias e aglomerados. A sua revoada cósmica, por essa razão, se torna terrivelmente complexa. Além disso, as galáxias muitas vezes se emaranham umas nas outras em épicas confusões—é o que astrônomos chamam “canibalismo cósmico”.
“A própria Via Láctea, neste momento, parece estar dilacerando uma dessas vizinhas menores”, provoca o astrofísico Daminelli. Trata-se da Pequena Nuvem de Magalhães, situada a apenas 150 mil anos-luz de distância (cada ano-luz representa 9,5 trilhões de quilômetros; em comparação, a mais próxima grande galáxia, Andrômeda, situa-se a 2,2 milhões de anos-luz). Assim, as partes mais próximas da Nuvem de Magalhães estão sendo tragadas pelo puxão gravitacional da Via Láctea. E certo que algumas colisões cósmicas podem envolver centenas de galáxias, gerando um híbrido imenso e deformado, com mais de 1 trilhão de estrelas— algo que soa natural apenas a uma íntima fração do gênero humano, os astrofísicos.
No entanto, o fato de sermos simples micróbios em escala galáctica tem as suas vantagens: “Essas colisões são muito grandes para nos afetar”, ensina Daminelli. De fato, se a Via Láctea caísse na goela de um canibal do espaço, as nossas estrelas apenas mudariam de posição—não haveria choque com as invasoras porque os astros estão geralmente muito afastados uns dos outros. Além desse efeito, notaríamos apenas, milênio após milênio, um vagaroso aumento do número de estrelas no céu. O primeiro passo para a descoberta do Grande Atrator, nesse agitado ambiente intergaláctico, foi dado por dois pesquisadores americanos, Brent Tully e Marc Aaronson (este, falecido no ano passado e o primeiro trabaIhando na Universidade do Arizona).
72687A59-C493-4D7B-9F3C-BCC586B29B18
A sua proeza foi determinar, há mais de dez anos, o movimento das 22 galáxias do Grupo Local na direção do aglomerado de Virgem, a 900 mil quilômetros por hora. Essa violenta fisgada se explica porque, embora a 70 milhões de anos-luz de distância, o aglomerado de Virgem contém centenas de galáxias e ainda um avantajado canibal bem no seu centro. Mas Virgem não permaneceu muito tempo com o título de Atrator: em 1977, descobriu-se que a Terra tinha outra direção no espaço além dessa. O planeta parecia estar se dirigindo rumo ao superaglomerado de Hidra-Centauro, duas vezes mais distante e—a julgar por sua força— dez vezes maior do que Virgem.
Lentamente, a noção de movimento acabou se impondo, mas mesmo assim resta uma certa inquietação. Esta se revela, no caso do Grande Atrator, diante da possibilidade de que o Universo não seja tão bem organizado quanto se pensava. “As grandes concentrações de galáxias perturbam a imagem que temos do Cosmo”, observa Daminelli. Feitas todas as contas, explica ele, os cientistas esperavam encontrar uma escala de distância onde as concentrações desapareceriam: o excesso de galáxias em alguns lugares seria compensado pela ausência de matéria em outros.
Os mais recentes mapeamentos do céu deixam dúvida, porém, quando à existência de tal escala: 400 milhões de anos-luz é uma porção considerável do espaço e mesmo assim continua apresentando desigualdade na distribuição dos astros. Por que será que o Universo apresenta uma face luminosa tão uniforme, enquanto a matéria se mostra tão heterogênea? Esta é a monumental pergunta que o Grande Atrator coloca aos cientistas empenhados em caçá-lo. Da resposta pode resultar mais uma reviravolta no conhecimento humano sobre o infinitamente grande.