A múmia pré-inca pertencia a um homem entre 18 e 22 anos, sepultado em posição agachada, com as mãos cobrindo o rosto e o corpo enrolado em cordas.

Uma múmia pré-inca foi encontrada no sítio arqueológico Cajamarquilla, localizado a 25 quilômetros de Lima, Peru. O corpo havia sido coberto de tecido, enrolado em cordas e colocado em uma posição agachada, com as mãos cobrindo o rosto, correspondendo a rituais de sepultamento incomuns na região. Nas suas proximidades, foram encontrados diversos outros artefatos, indicando práticas culturais da sociedade pré-inca.

De acordo com pesquisadores da Universidade Nacional de San Marcos (UNMSM, Peru), o jovem sepultado possuía entre 18 e 22 anos, e possivelmente era filho de um mercador rico. Ele viveu entre 800 e 1200 anos atrás, antes da ascensão do Império Inca. O achado foi apresentado para o público no final de novembro de 2021.

“A descoberta deste habitante lança uma nova luz nas interações e relações sociais no período pré-hispânico”, afirma Pieter Van Dalen Luna, professor de arqueologia na UNMSM e um co-líder da equipe de cerca de 40 pessoas na escavação.

Após a descoberta, a múmia foi transportada para estudos. Crédito: UNMSM

“Toda a equipe ficou muito feliz, nós não pensávamos que isso iria acontecer”, disse Yomira Huamán Santillán, arqueóloga e co-líder da escavação. Segundo ela, os trabalhos não tinham como objetivo localizar múmias, então sua descoberta surpreendeu toda a equipe. “Não esperávamos fazer uma descoberta tão importante”, explica ela.

Cajamarquilla, local da descoberta, já é um sítio arqueológico conhecido, fruto de diversas descobertas do mesmo período. Na região, que compreende 167 hectares de área, existia uma cidade ocupada por entre 10 e 20 mil habitantes — mercadores em sua maioria.

As pesquisas na área indicam que a cidade servia como um centro comercial que conectava a população da costa peruana com aqueles que viviam nas montanhas mais ao interior. Sua construção iniciou por volta de 200 a.C. e somente em 1500 d.C. a cidade foi desocupada.

Durante escavações do sítio, os pesquisadores descobriram uma câmara subterrânea de 3 metros de comprimento e 1,4 metros de altura. Ao adentrá-la, a equipe encontrou uma escadaria, que descia para o local onde a múmia pré-inca foi encontrada. Ela estava encostada de lado em um pequeno monte de pedras. Seu estado de preservação era alto o suficiente para revelar detalhes, como as unhas das mãos, posicionadas de modo a cobrir o rosto do jovem.

Detalhe das mãos. Crédito: UNMSM

“O que é diferente é justamente a forma de sepultamento: em uma estrutura subterrânea de forma cônica, com a múmia caracterizada por estar amarrada com cordas”, afirma Van Dalen Luna. “Isso se parece com um costume da região do alto andino do Peru.”

Segundo os pesquisadores, essas práticas correspondem a um padrão de sepultamento de sociedades pré-incas que ocupavam uma outra região, mais acima das montanhas. Sua presença em Cajamarquilla evidencia o caráter multicultural da antiga cidade.

“O fato de acharmos uma múmia com essas características no meio da plaza deixa claro que é alguém de grande status”, explica Van Dalen Luna. Ele acrescenta que, entre outras teorias, o jovem mumificado também pode ter sido uma espécie de líder comercial.

Ao seu redor, nesta câmara funerária, também foram encontrados outros artefatos de interesse arqueológico. O mais notável é uma outra múmia enrolada em tecido cordas, desta vez de um bebê. Além disso, os pesquisadores também identificaram os restos de um cachorro e um porquinho da índia e ossos de lhamas.

Próximo a entrada da câmara, a equipe encontrou indícios de vegetais e moluscos. Estes dois últimos são de grande interesse para os pesquisadores, pois parecem constituir restos de refeições feitas no local ou preparadas como oferenda ao morto. Assim, isso indicaria que o local de sepultamento do jovem foi visitado após a sua morte.

Múmia no interior da câmara de sepultamento. Crédito: UNMSM

“Depois que o corpo foi colocado na tumba, ocorreram atividades constantes”, explicou Van Dalen Luna. “Dessa forma, os descendentes continuavam retornando muitas vezes e colocando comida e oferendas lá, incluindo moluscos.”

Atualmente, Van Dalen Luna, Yomira Huamán Santillán e outros pesquisadores estão analisando a mumia pré-inca em detalhes nas instalações da UNMSM.

Fonte: Scientific American Brasil